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O UNIVERSO ERA UM OCEANO VAZIO – 2017

Exposição individual – Anexo OMA Galeria / São Bernardo do Campo, Brasil
curadoria: Julia Lima

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O universo era um ovo negro-carvão, até que o deus que havia lá dentro rebentou, e da casca estilhaçada ele fez o mundo como o conhecemos hoje. Seria possível escolher um mito como o grego sobre a origem do cosmos para falar da produção de Thiago Toes, assim como seria possível narrar tantas outras lendas e histórias místicas das quais o artista se vale na sua pesquisa. Mas são versos traduzidos livremente de uma canção da islandesa Björk, Cosmogony, que melhor traduzem o espírito por trás dos trabalhos apresentados nesta exposição.Toes vem, nos últimos anos, desenvolvendo um vocabulário próprio em pinturas, esculturas e instalações, sempre ligado à esfera cósmica, astronômica (e, também, astrológica), já de maneira independente à linguagem do graffiti, onde ele se iniciou. Sua produção recente investiga com olhos poéticos, e não científicos, as estrelas e constelações, as dimensões alternativas, fenômenos físicos e óticos, empregando elementos alheios a esse terreno – balaclavas, máscaras, bonés, objetos ligados à sua história com a arte de rua.Nascimentos e origens parecem interessar muito a Toes, como se ele estivesse construindo o seu próprio nascimento ou origem como artista. Sua cosmogonia particular é apresentada nesta mostra em três momentos: esculturas, pinturas e desenhos. Ainda que ele lide com suportes tradicionais, suas técnicas e materiais não são nada menos que inusuais. As pinturas, mesmo que no suporte da tela, sucedem na linha tênue entre realismo e abstração – não no gesto ou na matéria, mas na concepção do que seria a imagem do universo.As esculturas, por outro lado, derivaram de um caminho distinto. Um conjunto de obras marcantes iniciado por ele em 2013 foram as máscaras costuradas em tecidos variados, de estampas como a do sofá da casa da tia-avó, a padrões gráficos e geométricos, passando por panos de lycra de tons vibrante. As balaclavas maleáveis deram origem a novas toucas, dessa vez feitas em tecido endurecido por massa plástica e tinta automotiva. A série intitulada Meus Heróis inclui ambas as variações, e continua reverberando em novos trabalhos. A imagem do rosto coberto ou apenas do gorro vazio recorrentemente aparecem em desenhos e telas, e agora se multiplicam quase infinitamente sobre a parede lateral da galeria. As pequenas esculturas seriadas de uma tonalidade branca luzente polvilham a profunda superfície azul da instalação, eternizando os heróis nas constelações inventadas pelo artista.O conjunto não alude apenas ao ambiente cósmico, mas faz um o paralelo entre mar e universo, que não se dá apenas pela semelhança cromática, mas reside principalmente na coincidência entre dimensões que são misteriosas, sobre as quais pouco sabemos e nas quais mergulhamos sem saber ao certo o que vamos encontrar.Por fim, ligando as duas extremidades da exposição, Toes apresenta uma vasta série de pequenos desenhos, revelando de um lado a natureza projetual do que parecem ser pequenos estudos, e de outro lado o seu interesse reiterado em explorar todas as possibilidades de criação de uma imagem, arriscando-se com a propriedade flexível e rápida do papel. Essas sucintas ilustrações contrapõem-se contundentemente à escala monumental dos outros trabalhos da mostra, e permitem que o público acesse um pensamento distinto do artista – menos compromissado com grandiosas narrativas, mas não menos engajado no desenvolvimento de uma linguagem singular.O misticismo e romantismo com os quais Thiago Toes encara temáticas gigantescas – presente nas narrativas dos heróis, nas infinitas galáxias pintadas, nos signos do zodíaco – poderiam talvez soar anacrônicos como discurso, mas manifestam-se com ousadia no seu desapego: emprega materiais dos mais variados, como madeira, argila, papel, tinta automotiva, sem preferências ou favoritismos; lança-se intrepidamente em experimentações com técnicas novas e suportes inéditos; e busca sempre alcançar proporções e profundidades cada vez maiores a cada novo projeto. O artista nascido sob o último signo do zodíaco, da água e da emoção, tenta navegar por oceanos astronômicos e mitos ancestrais, descobrindo mais e mais que o universo é infinito.